Continuação do post anterior.
Ao parabenizar os ganhadores do prêmio Nobel de fisiologia e medicina este ano, e sendo um deles o descobridor da relação entre alguns vírus do tipo HPV e o câncer de colo do útero, lembrei-me de que a questão também se coloca (muito embora ainda em aberto) no âmbito do câncer de mama.
Em 2003, uma equipe do Hospital Príncipe de Gales em Sidney anunciou que havia encontrado o HHMMTV em 40% das 200 amostras de tumores de mama analisadas e que ele parecia estar ausente do tecido sadio próximo aos tumores.
O HHMMTV é um vírus humano semelhante ao MMTV, um vírus que produz câncer de mama em camundongos.
O vírus também foi encontrado em 50% dos raros cânceres de mama no homem e enfim detectado em 2% de amostras mamárias sadias, extraídas durante em cirurgia estética. Nesses estudos, talvez importe observar que mulheres e homens examinados eram todos brancos, de fenótipo caucasiano.
Os números ainda são relativamente pequenos, mas, segundo Evan Simpson, chefe da equipe do Victorian Breast Cancer Research Consortium na Austrália, as descobertas são espantosas, acreditando-se que há muitos tumores provocados pela inserção de seqüências virais.
A possibilidade de vírus como o HHMMTV poderem causar alguns tipos de câncer de mama já vem sendo investigada desde pelo menos 1970. A jornalista americana Rose Kushner já fala dele em seu livro “Por que eu?” (Why me?), publicado pela primeira vez naquela década.
Mas os estudos nem sempre são convergentes. Ao examinar 120 mulheres vietnamitas com câncer de mama, a equipe de Sidney só encontrou o vírus em uma delas.
Embora algumas contradições precisem ser explicadas, em um trabalho não publicado eles encontraram o vírus em seis dos nove tipos de câncer de mama masculino testados. Usando uma técnica de análise genética sensível, eles também mostraram que, nas mulheres, o vírus é encontrado precisamente na mesma região que o tumor, e não em outras partes do seio. Numa outra pesquisa, com dez mulheres, o vírus foi achado quando havia a doença. Depois de o câncer ter sido tratado, o vírus desaparecia. Noutra experiência, observou-se que, quanto mais agressivo era o tumor, maior a quantidade de HHMMTV presente na amostra.
A versão do vírus em camundongos, o MMTV, foi descoberta em 1950. Uma das coisas observadas pelos cientistas foi que – gravem isso! – níveis elevados de certos hormônios reprodutivos podem fazer o vírus se duplicar naqueles animais.
O vírus provoca o câncer ao inserir partes de si mesmo nas seqüências do gene relacionado ao câncer. Nos camundongos, o vírus é transmitido da mãe para o bebê através do útero e do leite.
Em 2003, a antiga Federação [Belga] contra o Câncer, hoje Fundação, fez o seguinte comentário, reportando-se a uma das edições da revista científica Clinical Cancer Research naquele ano:
“O vírus HHMMTV (Human Homologue of Mouse Mammary Tumour Vírus) foi posto em evidência. [...]. No entanto, devemos permanecer prudentes face ao anúncio de tais resultados. Com efeito, nada estabelece até aqui um liame causal entre a presença do HHMMTV e o desenvolvimento do câncer de mama na mulher. Trata-se com certeza de um fato mais do que intrigante, mas podemos muito bem imaginar que esse vírus se tenha desenvolvido num meio ambiente mais favorável para ele, por exemplo um tecido canceroso. Devemos, portanto, esperar os resultados de novos estudos que determinarão se o HHMMTV é a causa ou a conseqüência do desenvolvimento de certos tipos de câncer de mama.” (Trad. livre).
Para alguns cientistas, é possível que o oncornavírus tipo B e o vírus Epstein-Barr (EBV) também estejam na origem de alguns cânceres de mama. Contudo, o avanço das pesquisas nessa direção se depara com o limite ético. Sim. Pois é impensável que um vírus possa ser usado para provocar câncer de mama experimental em seres humanos à semelhança do que já foi feito – com êxito – em camundongos de laboratório.
Se porém (por meios lícitos, claro!) ficar demonstrada a existência de vírus causadores de câncer de mama, isso não só ajudará a explicar – pelo menos em parte – a ocorrência de certos casos de câncer de mama como também aumentará a possibilidade de tratamentos precoces e vacinas, a exemplo do que já acontece em relação aos cânceres de colo do útero produzidos por HPV.
Fontes: International Agency for Research on Cancer (IARC – OMS), Iarc News, 7/10/2008, New Scientist, 18/08/2003, Época Online, 18/08/2003, Fédération belge contre le cancer, 2003.
Bom dia.
gostei muito dos esclarecimentos
um abraço
sandra