Desde 1º de outubro, uma crônica de Antoine Char, “Esconda esse seio” (“Cachez ce sein”), está no jornal Metro, de Montréal, como parte das ações desenvolvidas no “Outubro Rosa” contra o câncer de mama.
A crônica veicula uma denúncia que há anos vem sendo feita pela rede nacional “Renata”, que congrega 5.000 mães-solteiras dos Camarões vivendo no Canadá.
O que se denuncia é uma tradição terrível. Como se não bastassem as ablações de clitóris – pelas quais elas mesmas já passaram – milhões de mães africanas são condicionadas “culturalmente” a achatar com uma pedra aquecida ao fogo os seios adolescentes de suas filhas a fim de “protegê-las” dos olhares lascivos dos homens.
Nos Camarões, 10% dos cânceres de mama seriam o resultado de tais “passagens a ferro”!
Quase um quarto das adolescentes daquele país de 17 milhões de habitantes – e inúmeras outras em toda a África – tem os seios “passados a ferro”. No total, estima-se que quatro milhões de nativas, só nos Camarões, foram tratadas assim para esconder o seio, símbolo visível de sua feminilidade.
A exemplo de outros costumes mundo afora, como o que consistia em amarrar, quebrar e manter pequenos os pés femininos na China antiga, mutilações no clitóris e nos seios impedem as mulheres africanas de viver normalmente a sua sexualidade e as expõem a numerosos problemas de saúde – entre os quais infecções, abscessos, cicatrizes e engrossamentos do tecido, onde células cancerosas podem se formar.
Em países pobres e de pouco acesso à educação, o câncer de mama ainda é tabu. Javiera Arroyo, conselheira de saúde em Montréal, conta que algumas imigrantes originárias daqueles países procuram os serviços sociais canadenses alegando que lhes “jogaram uma praga”. Elas se sentem rejeitadas e convencidas de que têm uma “doença vergonhosa”, mas, pelo menos ali, podem tratar-se. No Afeganistão e outras culturas semelhantes, além de terem de enfrentar vergonha e pobreza, as mulheres dependem de autorização dos maridos, pais ou irmãos até para isso!
No Egito, uma mamografia custa 50 dólares – ou seja, o salário médio mensal de uma egípcia! Na Índia, só metade das mulheres com câncer de mama são tratadas, e mesmo assim são poucas as que têm perspectiva de cura.
E no Brasil, como está a situação?…Em face das enormes disparidades sociais que há entre nós, ao mesmo tempo em que temos cuidados preventivos e curativos ditos “de primeiro mundo”, a maioria esmagadora de nossas compatriotas não tem acesso a mamógrafos nem, quando é o caso, a tratamentos de qualidade.
Deixo aqui a reflexão. No próximo post retomarei o assunto, inclusive trazendo sugestões para ajudar a derrubar nossas escandalosas taxas de mortalidade por câncer de mama. Mande a sua, ela é muito importante. Juntos, poderemos conscientizar a opinião pública acerca da urgência do problema, que já figura entre os maiores que temos em matéria de saúde pública!
Muito interessante o post!
Há quem defenda que hábitos culturais como ablações e «passagens à ferro» sao um direito de um povo e que posicionar-se contra eles é impor sua cultura à força. Textos como esse mostram o que esses ritos realmente significam: cicatrizes fisicas (talvez sementes de um futuro câncer) e profundas marcas psicològicas.