Neste mês de outubro, dedicado à luta mundial contra o câncer de mama, achei por bem oferecer aos leitores não especializados no assunto uma visão ampla, porém resumida, do que se sabe hoje sobre o câncer de mama, sua prevenção e tratamentos.
Comecemos usando uma metáfora. Façamos de conta que o nosso corpo é uma casa, construída de tijolos de vários tipos, na qual cada cômodo tem uma função. Os tijolos seriam as células com as quais são formados seus diferentes tecidos e órgãos. Os cômodos seriam os órgãos. Imaginemos que cada cômodo desenvolva uma atividade determinada e que seja regulado, mantido e protegido por complexos sistemas de abastecimento d’água, energia e vigilância.
No caso dos nossos órgãos, a regulação, manutenção e proteção são exercidas por sistemas muito mais complexos. O sistema de vasos sangüíneos, por exemplo, auxiliado (salvo no cérebro) pelo sistema de vasos linfáticos, lhes fornece oxigênio, nutrientes, hormônios, células de defesa e anticorpos, além de eliminar e “varrer” para fora deles impurezas, vírus, bactérias nocivas, células cancerosas e outros agentes causadores de infecção.
A mama, seio ou peito é, como sabemos, um órgão produtor de leite. Nos seres humanos, o padrão é haver somente duas mamas. Contudo, entre 1% e 6% dos homens e mulheres de qualquer população nascem com mamas extras, também chamadas de acessórias, supranumerárias ou ectópicas. Em geral elas se situam embaixo da mama normal ou na direção da axila, mas podem, mais raramente, se situar na virilha, na vulva ou no abdômen. Conheci uma mulher, esposa de um colega, que me disse ter mamas extras nas axilas, sem mamilos, e que ia operá-las. Até então, lhe haviam dito tratar-se apenas de dois grandes nódulos de gordura.
Por que toco no assunto? Porque quase ninguém toca. E essas mamas, se não forem removidas, também precisam ser objeto de exames regulares de rastreio ou de diagnóstico contra o câncer de mama.
Toda mama possui uma glândula, composta de dois aparelhos: um que “fabrica” o leite e outro que o conduz até o mamilo. As seções da glândula mamária onde o leite é “fabricado” são chamadas de lobos, os quais são compostos de lóbulos e de unidades ainda menores chamadas ácinos ou alvéolos. Mesmo entre especialistas, é comum tomar-se a parte pelo todo e chamar os lobos ou um de seus componentes de “glândulas mamárias”. Os canais por onde o leite circula até chegar ao mamilo são chamados de ductos.
Lobos e ductos se acham dispostos dentro da mama de uma forma que lembra muito um cacho de uvas. Os lobos, com seus lóbulos e ácinos, corresponderiam às uvas; e os ductos corresponderiam aos ramos, todos convergindo para o mamilo.
No homem, a estrutura das mamas é a mesma – com lobos e ductos – só que, atrofiada. E assim como o corpo da mulher produz e faz circular pequenas quantidades de hormônios masculinos, o corpo do homem produz e faz circular pequenas quantidades de hormônios femininos.
As mamas femininas dependem de hormônios, e muito particularmente de hormônios femininos, para se desenvolverem e funcionarem adequadamente. Fatores hereditários e outros influem no seu tamanho, mas, grandes ou pequenas, todas são igualmente capazes de produzir leite durante a idade fértil da mulher.
As células mamárias são dotadas de muitos receptores para hormônios femininos. Um receptor hormonal pode ser comparado a uma “fechadura” que só aceita como “chave” o hormônio que lhe corresponde. Assim, por exemplo, um receptor hormonal para estrógeno só aceita como chave um estrógeno – seja ele endógeno (“fabricado” pelo organismo) ou exógeno (absorvido de fora, através de drogas, alimentos e outras substâncias).
Para compreendermos muito do que se passa com a saúde dos nossos seios, é importante atentarmos para uma coisa. As substâncias “imitadoras de hormônios” que ingerimos ou absorvemos do meio ambiente - através de alimentos, drogas e outros produtos – concorrem com nossos hormônios endógenos para ver quem chega primeiro aos correspondentes receptores na célula mamária. O que chegar primeiro bloqueia, para o bem ou para o mal, a chegada do outro.
Quando um câncer de mama é hormonodependente, a droga tamoxifen (Nolvadex), por exemplo, disputa com os estrógenos endógenos os receptores de estrógeno das células mamárias. Nesse caso, o que se espera dela é que ganhe a corrida e bloqueie esses receptores, pois, uma vez lá, ela não exercerá sobre as células mamárias os efeitos proliferativos que teriam os estrógenos endógenos, inibindo dessa forma a proliferação das células mamárias cancerosas (dentro e, se for o caso, fora da mama).
Com outras substâncias “imitadoras de hormônios” a coisa pode ser bem diferente, e, em vez de saúde, trazer doença. Por quê? Porque muitas dessas substâncias exercem sobre as células mamárias efeitos proliferativos mais intensos que o hormônio por elas imitado, interferem no metabolismo dos verdadeiros hormônios e podem desregular nosso complexo sistema endócrino.
Os hormônios, como se sabe, são agentes químicos reguladores de funções orgânicas. Através do sangue, eles circulam o tempo todo no nosso corpo colocando “placas” e “sinais” “na estrada” a fim de fazer com que os trilhões de células que possuímos possam cumprir satisfatoriamente as tarefas que lhes são ordenadas por nosso genoma (conjunto de genes que cada célula carrega em seu DNA, distribuídos em cromossomos). Portanto, se substâncias “imitadoras de hormônios” sabotarem esse trabalho, mudando ou invertendo “placas” e “sinais”, as células se desorientam e surgem desordens.
No caso das mamas, suas necessidades em matéria de hormônios femininos (estrógenos, progesterona, prolactina etc.) variam enormemente com as diferentes fases de nossa vida. Assim, por exemplo, numa adolescente cujos seios estão se desenvolvendo, a demanda de estrógeno é inúmeras vezes superior à de uma mulher menopausada; numa lactante, a demanda de prolactina é exponencialmente maior que a de outra que não esteja amamentando; na grávida, a demanda de progesterona supera de forma dramática a da não grávida.
A farmacologia e a medicina têm feito progressos incríveis no manejo de diversos problemas de natureza hormonal, inclusive em matéria de câncer, mas é preciso cautela na administração de hormônios. Os cientistas não só desconhecem alguns de seus mecanismos de ação como não lhes foi possível ainda modular a liberação dessas substâncias no corpo com a presteza e eficiência de um organismo saudável.
Quando o funcionamento de nosso sistema hormonal se desequilibra, surgem, como disse, desordens. Nas mamas, essas desordens podem ser leves ou graves. Na maioria das vezes são leves. Muitas delas sequer são consideradas doenças mas tão-somente alterações funcionais benignas da mama (AFBM), conhecidas antigamente por displasia.
O perigo só fica maior quando a mulher vai envelhecendo. Pois, embora os especialistas evitem falar de causas do câncer de mama, considerando que se trata de doença multicausal e com muita coisa ainda a ser esclarecida, ninguém discorda de que o sexo feminino e a idade são os maiores fatores de risco da doença para a população geral. O fator genético-hereditário, até onde se sabe, só responde de forma prevalente por cerca de 10% dos casos.
O câncer de mama, como todo câncer, é um processo no qual se instala um tipo de desordem grave, decorrente de mutações acumuladas em genes especiais da célula. É como se a maquinaria genética tivesse se quebrado levando a célula a ignorar as leis biológicas do tecido a que pertence e se reproduzir indefinidamente. Uma se divide em duas, duas em quatro, quatro em oito, oito em dezesseis,… e assim por diante. Como são cancerosas, diferentemente das normais, elas não param nunca de proliferar e tudo fazem para não morrer.
Resultado: se não forem destruídas pelo sistema de defesas do corpo (onde se inclui o sistema imunológico), essas células vão se acumulando e formando um tumor, que cedo ou tarde tenderá a espalhar a doença no corpo por meio da corrente sangüínea ou linfática.
Existem vários tipos de câncer de mama. A maioria depende de hormônios e surge em tecido epitelial (de ducto ou lobo mamário) sendo por isso classificada como pertencente à categoria dos carcinomas. Sabe-se, há décadas, que alguns hormônios femininos, endógenos ou exógenos, sozinhos ou interagindo com outros, instigam as células mamárias a proliferar, promovendo assim o crescimento de cânceres subclínicos, não visualizáveis ainda na mamografia. Recentemente, o Iarc (instituto de pesquisa vinculado à OMS) confirmou a genotoxidade de alguns desses hormônios. Mas isso é assunto para outro post.
Assim como o câncer de outros órgãos, todo câncer de mama forma tumor, ainda que oculto. A maioria esmagadora deles é hormonodependente e surge no tecido epitelial que reveste ductos e lobos. Os que surgem em ducto são chamados de carcinomas ductais; e os que surgem em lobos, são chamados de carcinomas lobulares. Os mais freqüentes são os carcinomas ductais. Se um carcinoma ductal ou lobular se achar confinado no tecido epitelial onde surgiu (mucosa de ducto ou lobo), dizemos que é in situ. Caso seja descoberto nesse estágio, a cura esperada gira em torno de 100%!
Continua no Post 2: Importância da mamografia
Muito completo e ao mesmo tempo de maneira clara.
Sou estudante de enfermagem e aprendi com a matéria. Obrigada!
[...] Mais sobre hormônios, receptores hormonais e câncer de mama [...]
[...] Medo do câncer de mama?… Proteja-se de seu medo! (Post 1: Falando de mamas, hormônios e câncer) [...]
[...] Para entender o papel dos pesticidas e outros desreguladores e imitadores de hormônios em relação ao câncer de mama: MEDO DO CÂNCER DE MAMA?… PROTEJA-SE DE SEU MEDO! (POST 1: FALANDO DE MAMAS, HORMÔNIOS E CÂNCER… [...]
Em janeiro de 2006 a minha mestruação começou a diminuir
logo Eu procurei o ginecologista a onde eu fiz vários exames mamografia ,papanicolau ,exame de sangue não foi
constatado nada .
Então a médica me pediu uma resonançia magnetica a onde foi constatado um pequeno adenoma.
A ginecologista disse que Eu não ficasse procupada pois não estava precionando nenhum nervo ou nervo otico.
Ela me encaminhou para a endogrinologista que me pediu para fazer exame de prolactina onde constava um valor de 156ng/mL depois do resultado ela me receitou tomar o remédio Parlodel bromocriptina 2,5 mg.
Tomar um comprimido por dia então a prolactina chegou a ficar controlada . Ela então diminuiu a dose passei a tomar meio comprimido por dia mas a prolactina subiu para 37.4ng/mL ela me que a prolactina subiu um pouco mas não era motivo para entra em desespero.
Depois Ela me receitou tomar meio comprimido nos dia em que as datas forem ímpares e um inteiro nas datas em que forem pares.
A minha pergunta é porque não e mencionado nada sobre o parlodel bromocriptina 2,5mg e se a outro remédio que causa o mesmo efeito pois a caixa com 28 comprimido custa
cerca de 84 reais e a de 14 custa 48 reais perguntei a endocrinologista e ela me que não mas um farmaceutico disse que sim so que ele não lembrava o nome outro remédio.
Olá, Teresa, tentei entrar em contato com vc por e-mail mas não consegui. Antes de responder a sua pergunta, gostaria de saber sua idade e em que órgão se localiza esse adenoma, que é um tumor benigno. O objetivo da pergunta não é obviamente me substituir ao médico (longe disso!) mas orientar vc no seu diálogo com ele ou ela. O adenoma é no seio ou na hipófise?
Abração.
Maristela.
[...] MEDO DO CÂNCER DE MAMA?… PROTEJA-SE DE SEU MEDO! (Post 1: Falando de mamas, hormônios e câncer… [...]
oi eu preciso de ajuda! eu tenho apenas 15 anos, de repente meu seio começou a coçar e depois doer, passou uns dias e fui ao medico, ele disse que era infecçao e me recomendou fazer compressas de agua 3 vezes ao dia, passou uma semana, voltei lá, meu seio já tava vermelho e doía muito, fiquei internada e ele fez uma pequena cirurgia, retirou muito pus e sangue. hoje eu já estou melhor, mas eu tenho muito medo de ser cancer, pois eu vi numa pesquisa que em alguns casos o bico entra pra dentro do seio, e o meu entrou e nunca voltou ao normal.
Dra Maristela Simonin
Que prazer revê-la. Dei uma parada no meu projeto de pesquisa para a dissertação do mestrado”Influencia do meio ambiente no câncer de mama”. Li seu livro” Sem Medo do Câncer de Mama” vc está de parabéns. Estou retornando de Saõ Paulo em 04/10/2009. Já iniciando o projeto para qualificação.Projeto pronto te envio uma cópia. Vou enviar o e-mail solicitando oficialmente sua colaboração.
Um grande abraço
Enfermeira Tereza Pinho(PROCAPE)