No post anterior, compartilhei com vocês algumas informações sobre a importância da amamentação como fator de proteção contra o câncer de mama. Trouxe também informações – essas preocupantes – sobre o impacto que um meio ambiente contaminado pode ter sobre o leite materno.
Hoje, passei um tempão revendo as notícias que saem na mídia sobre esse assunto. Busquei separar com cuidado o que é verossímil do que é sensacionalismo. Resultado: continuo achando que a grande questão já não é saber se estamos ou não contaminados por substâncias tóxicas e desreguladoras de nosso sistema hormonal; a grande questão agora é saber quão contaminados estamos e de que forma isso afeta nossas vidas.
Por ora, deixo de lado as preocupações com vazamentos radioativos e outras tantas mazelas ambientais para me deter apenas na lista de contaminantes – absolutamente insuspeita – da Convenção de Estocolmo e algumas substâncias já associadas com problemas mamários por estudos sérios. Naquela lista, assinada por 151 países, inclusive o Brasil, figuram 12 produtos conhecidos como contaminantes orgânicos persistentes. Decidiu-se que todos eles deverão ser banidos do planeta, de forma gradual porém definitiva, pois colocam em grave risco a saúde e a vida.
Nove são pesticidas, como o DDD, e dois são usados somente na indústria: o PCB e o hexaclorobenzeno. Há também os subprodutos, como os furanos e as dioxinas.
Num artigo intitulado Por um Futuro Sem Contaminantes Orgânicos Persistentes, José Santamarta, ambientalista e editor da revista World Watch para a América Latina, informa que esse gênero de contaminantes, por serem solúveis nas gorduras, se acumulam e persistem nos tecidos vivos por anos a fio. De modo que, mesmo quando são legalmente banidos e deixam de ser usados, conservam uma crônica toxidade a longo prazo. Alguns, além de venenosos, são classificados como xenoestrógenos, isto é, como substâncias que imitam os efeitos proliferativos (potencialmente carcinogênicos) dos estrógenos em órgãos como os ovários, o útero e… as mamas.
Santamarta é claro: “Alguns organoclorados podem imitar substâncias químicas naturais, como os hormônios, e perturbar os processos químicos dos organismos vivos”. Daí porque são chamados de “desreguladores hormonais”, “desreguladores endócrinos” ou “disruptores endócrinos”.
Centrando o foco nas dioxinas, ele diz:
“As dioxinas [que, segundo o autor, compreendem 75 compostos químicos] são tóxicas por atuarem como se fossem hormônios naturais, substâncias muito potentes em pequeniníssimas quantidades, pois excitam, inibem ou regulam as atividades de outros órgãos; entretanto, ao contrário dos hormônios, a atividade das dioxinas continua indefinidamente durante anos e anos. As dioxinas atuam dentro das células do nosso organismo. [...]
Nos níveis em que se encontram normalmente no entorno, as substâncias químicas desreguladoras hormonais não matam células nem atacam o ADN [DNA]. Seu objetivo são os hormônios, os mensageiros químicos que se movem constantemente dentro da rede de comunicação do corpo. As substâncias químicas sintéticas hormonalmente ativas são ‘delinqüentes’ da auto-estrada da informação biológica que sabotam comunicações vitais, atacam os mensageiros ou os alteram. Mudam os sinais de lugar. Revolvem as mensagens. Semeiam desinformação. Causam todo tipo de estrago. [...]
A espécie humana carece de experiência evolutiva com esses compostos sintéticos. Esses imitadores artificiais dos estrógenos diferem em aspectos fundamentais dos estrógenos vegetais. Nosso organismo é capaz de decompor e excretar os imitadores naturais dos estrógenos, porém muitos dos compostos artificiais resistem aos processos normais de decomposição e se acumulam no corpo, submetendo os humanos e animais a uma exposição de baixo nível, mas de longa duração. Este modelo de exposição crônica a substâncias hormonais não tem precedentes em nossa história evolutiva e, para se adaptar a este novo perigo, seriam necessários milênios não décadas.” (em rev. Agroecologia e Des. Rural Sustentável, RS, jan 2001).
A propósito de organoclorados e subprodutos, não deixe de ler a notícia que transcrevo no post MEIO AMBIENTE E CÂNCER DE MAMA .
Há outros vilões químicos além dos que foram mencionados até agora. Muitas são as substâncias que nos intoxicam, intoxicam o leite que produzimos e desregulam nossos hormônios, com insondáveis prejuízos para a nossa saúde e a saúde de nossos filhos. Só agrotóxicos, temos 1.174 (mil cento e setenta e quatro) regularmente registrados no País segundo a Anvisa, nenhum “inocente” e muitos despachados para cá de países onde são proibidos. Aqui, não temos sequer certeza de que seu uso esteja sendo efetivamente fiscalizado.
No dia 29 do mês passado, uma notícia da BBC Brasil, veiculada no Estadão.com, informava que um estudo, publicado na revista científica Human Reproduction, medira os níveis de compostos perfluorados (PFCs) no sangue de 1.240 mulheres e descobrira que esse produto – que é usado em embalagens de comida – reduziria os níveis da fertilidade feminina. Claro que é só um estudo, há necessidade de aprofundar as pesquisas, mas já dá para preocupar.
Outra substância química que há anos vem sendo acusada de ser um desregulador hormonal, é o Bisfenol A (BPA). Ele é usado em objetos de plástico policarbonato, como mamadeiras, garrafas de água, garrafas de plástico para bebês, latas de metal e outras embalagens alimentares. Em estudos com cobaias animais, foi relacionado com disfunções sexuais, redução na contagem de espermatozóides, feminização de macho, câncer de próstata e… câncer de mama.
Pesquisas recentes também detectaram aumento dos riscos quando um objeto que contém BPA é exposto ao calor, seja por receber líquidos quentes seja por ser exposto ao microondas. Vejam em EcoDebate:
Bisfenol A (BPA): Ferver garrafas plásticas acelera a liberação de substâncias tóxicas
e Nova pesquisa reafirma os riscos do bisfenol-A, BPA, para o desenvolvimento de câncer.
No Canadá, o uso do BPA é proibido em produtos infantis mas muitos pesquisadores entendem que a proibição deveria ser geral. Nos Estados Unidos, o tema ainda está em discussão no Congresso. No Brasil, nem sequer está em pauta.
Para saber mais sobre BPA: EUA: Legisladores iniciam discussões para a total proibição do Bisfenol-A (BPA) e informativo em inglês.
Recentemente, um estudo avaliou as conseqüências da exposição de camundongos durante a gravidez e/ou durante a amamentação a um produto conhecido por PFOA (ácido perflurooctanoic) ou C8. Esse produto, além de usado em antiaderentes, é muito utilizado em embalagens de alimentos. Segundo os pesquisadores, efeitos precoces e persistentes nas glândulas mamárias de fêmeas de camundongo sugerem que o PFOA pode gerar consequências danosas permanentes.
Esses efeitos incluem alterações no desenvolvimento da glândula mamária adulta. As alterações persistiram na idade adulta dos animais cobaias, mesmo depois que os níveis de PFOA retornaram aos níveis equivalentes aos do grupo-controle.
Embora mais estudos sejam necessários, os resultados deste sugerem que a breve exposição ao PFOA no início da vida – no útero e no período pós-natal – pode provocar alterações permanentes na estrutura da glândula mamária, tal como acontece, por exemplo, com as dioxinas (Fenton 2006).
É verdade que ainda é cedo para avaliar se os níveis de exposição humana ao PFOA nas fases iniciais de seu desenvolvimento podem, como ocorre com os camundongos, afetar o desenvolvimento das mamas e a capacidade de amamentar na idade adulta. Mas o risco existe; e, enquanto não surgem novas provas, penso que o melhor seria sermos precavidos.
Um segundo estudo relacionou contaminação por PFOA com infertilidade feminina. Seus autores afirmam que mesmo níveis baixos de exposição já são suficientes para reduzir a capacidade de conceber.
Para saber mais sobre o PFOA:
Duas novas pesquisas avaliam os risco de contaminação por PFOA (C8)
A pergunta que fica para a reflexão de vocês é a mesma de sempre: o que posso – ou podemos – fazer diante disso?
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